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.: Um Gole De Ideias :. -> Dois anos no ar!

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Homem Morto


Era a primeira vez que eu tinha visto um corpo sem alma tão de perto. Já me deparara com rostos inexpressivos, sorrisos oblíquos e olhos profundos. Mas um morto, de fato, era a primeira vez. Havia um buraco de bala acima do nariz. A máscara de sangue escondia quem ele era. Suas roupas estavam esgarçadas e nem as moscas o respeitava mais, violando a integridade de um defunto caído.

Em primeiro momento, eu me assustei com a imagem, ou melhor, com o resultado de um fato ocorrido. Ainda estava escurecendo, o céu estava manchado com as cores de inverno de nuvens alaranjadas. O bairro era tranqüilo, sem incidência de fatos como esse. Logo, uma cena como essa choca, no instante de sua contemplação. Um homem morto. Um cadáver estirado no canto da calçada.

Olhando para ele, eu me vi parecido com um morto. Ele usava sapatos em pés que não andarão outra vez e, eu, me cansei de correr. Ele tinha os braços parados e a pele fria. Quantas vezes eu permaneci estático por causa da minha insensibilidade? Nenhum ruído ele provocava. Lembro-me de me calar, quando o silêncio não era uma boa resposta. Não sabia organizar argumentos que me diferenciasse do defunto.

Não sei dizer ao certo quem era o morto sobre aquela calçada, naquele fim de tarde de inverno, naquele bairro tranqüilo. Era difícil não me igualar ao homem caído, já que as suas atitudes – assumidas no momento em que brindou à morte – eram reflexos da minha postura recentemente tomada. Outros espectadores chegaram e ligaram logo para o Corpo de Bombeiros.

Assim que ouvi as desesperadas sirenes, partir do local às pressas, temendo que eles também me confundissem com um outro morto. Na verdade, até mesmo minha falta de coragem era indício de que o morto também era eu. Virei à esquina e pude diminuir os passos e pensar mais sobre isso. Voltei a minha casa e percebi que levo uma vida semelhantemente como um zumbi. Há somente uma diferença: escrevo sobre eles.

3 comentários:

  1. Aplausos!!!

    Boa temática e boa reflexão! Gostei de me ver caído na calçada... quero dizer: gostei de me ver sensibilizado pela história. E isso é bem verdade... até que ponto você se deixa ser confundido com um defunto?

    Parabens...! Gostei muito mesmo, Alexandre!

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  2. É... realmente o que há de zumbis vagando pelas ruas assusta. É só ter um corpo extendido no chão, e logo surgem os Urubus Carniceiros da Curiosidade: não movem nem sequer uma articulação - ficam estáticos e a única coisa que movimentam é o articulador das palavras (a língua grande).

    Admito eu já fui assim (melhor, sou assim - mas luto contra), não por vontade própria, mas por maus exemplos e talvez comodismo. Libertei-me um pouco dessa desumanidade - a Fonoaudiologia me auxiliou. Mas ainda não foi o bastante - quase nada (?). Mas a curiosidade faz parte de nossa essência - talvez o mexerico seja apenas um espírito de imprensa mal revelado - mal aproveitado, também.

    Enfim... Adorei o Gole! Corajoso por fazer a crítica do lado do Criticado e, pela clareza de descrição que, fez-me acreditar que o acontecimento... aconteceu de fato - quase uma fotografia, ou uma prova (por alguns minutos vc seria testemunha - rs). (...) No entanto, a obra é ficcional (vc me disse via MSN)... Os Amigos de Gole com suas escritas impressionísticas e bem contadas, move os leitores à verossimilhança. Uma "mentira" bem contada torna-se verdade já diz o dito popular.

    Um Gole ácido e lacerante (Soda cáustica)

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  3. Caramba! Parecia estar nas páginas de um livro policial enquanto lia seu gole... Me senti no local, ao lado do cadáver, fitando-o junto com você. Que realismo, cara! Lembrei da minha própria narração do jogo Flamengo x Botafogo no meu último texto! rs
    Acho que você está querendo tomar meu lugar de depressivo e triste... Mas não vai! rs

    Parabéns pelo texto, amigo!
    Abraço!

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Muito obrigado pelo seu comentário (dose)!

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