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.: Um Gole De Ideias :. -> Dois anos no ar!

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sábado, 29 de maio de 2010

Contículo

Certo dia ouvi, da boca de um ser que rastejava, palavras que insultavam a minha inteligência. Reflexões básicas que um renomado escritor da minha estirpe já devia estar acostumado. Mas não foi o caso. Parece que da toca do coelho soltavam afirmações e coisas ganhando outras proporções, e quem me dera se fosse a síndrome de Alice. A questão aqui é social, e o ser que rasteja é um dançarino sem pernas.

sábado, 22 de maio de 2010

O COBRADOR-ESCRITOR

Ao querido escritor Júlio Emílio Braz

Escritores todos nós somos, contudo alguns escrevem ficções tão boas que a confundimos com a realidade. Eu sou o oposto disso: como todo bom auxiliar de viagem, ouvinte de acontecimentos surpreendentes, relato fatos tão esdrúxulos que qualquer leitor pensaria estar numa fantasia. Melhor explicar: auxiliar de viagem igual ao popular cobrador. Essa denominação afasta um pouco as pessoas de mim, mas rótulo é rótulo, não se escolhe. Além do mais é isso mesmo que eu faço.


Adoro o meu trabalho, porém muitos acham que minha função é meramente operacional, uma ação cansativa e monótona. Estão enganados, pois no meu trabalho, apesar dele parecer rotineiro, todos os acontecimentos que surgem são inéditos e dinâmicos – claro que nem todos. A cada dia embarco numa nova aventura. Durante a lotação, eu percebo cada evento minuciosamente; posteriormente quando a viagem tranquiliza, eu as guardo no meu caderno de anotações (que o fiscal não leia isso!).


Seria muita maldade estimular você, leitor, a ler minhas anotações e não expor ao menos uma delas aqui. Digo sempre que seria muito difícil selecionar o melhor dos meus escritos, entretanto deixarei aqui um fato que despertou minha atenção por se tratar de alguém incomum, embora eu possuísse uma grande afinidade com ele: a escrita. Certo disso, serei breve no conto.


Trata-se de um afamado escritor que, todavia, no ônibus tinha sua identidade preservada. No mês passado, diariamente ele assentava-se no mesmo lugar: no assento mais alto e no fundo do ônibus para ter uma boa visão dos acontecimentos. Demonstrando sua simpatia, ele nunca negou palavra a ninguém, fosse criança, adulto ou idoso. Certa vez, ele começou a conversar comigo, no entanto, desconfiado percebi um tom de entrevista naquele diálogo.


Anos depois, ao explorar uma livraria, encontrei na orelha de um livro estampado o rosto daquele mesmo homem. Isso foi convidativo, logo comprei o exemplar. Ao folhear a obra encontrei-me nela literalmente: tudo que eu havia dito naquela conversa estava ali descrito com minúcias.


Enfim, a minha representação naquele livro me encorajou. Percebendo que mais pessoas vêem no ambiente ônibus um universo de coisas surpreendentes, logo entrei em contato com aquele homem e mostrei o meu simples caderno de anotações. Deu certo, ele apadrinhou as minhas ideias. Hoje posso dizer orgulhosamente que sou um dos poucos a desempenhar a profissão de cobrador-escritor.

sábado, 15 de maio de 2010

O MARSELHÊS VOADOR

Muitos sonham em visitar a minha cidade natal, no entanto, eu sonho justamente por estar nela. Já diz o ditado: um marselhês sonha por mil. Não sei se sonhamos tanto ou se apenas lembramos mais deles do que os outros: ultimamente a Europa não tem o direito de sonhar. Ou, talvez, seria porque colhemos os frutos de uma cidade de paz, da cultura e da arte?


Meu pai sempre me contava tantas histórias antes de dormir... e eu sempre as continuava no meu mundo dos sonhos. Era um mundo onde todos voavam, mas não tinham asas e nem se pareciam com pássaros. Não tinham super-poderes, tampouco eram robôs de tecnologia avançada. Apenas voavam... digo, apenas voávamos.


Incrível! Lembro-me até do meu primeiro voo, de tão real. Inicialmente planei sobre o Velho Porto de Marselha, depois de muitas tentativas alcei voo sobre as mais belas colinas acompanhado da Mamãe. Fiquei orgulhoso por poder fazer aquele feito tão gracioso, tão humanamente impossível, contudo, no meu mundo voar era a coisa mais natural. Excetuando alguns que nasciam aleijados: não podiam voar, pois não sabiam sonhar. Mas eram a minoria, poucos eram limitados ao solo, geralmente os filhos de super-sonhadores.


Os super-sonhadores, no mundo normal, seriam como super-dotados da inteligência onírica. Eles possuíam tantas fantasias, desfrutavam de tantos devaneios que os seus filhos não tinham mais sobre o que e nem porque sonhar, apesar de nascerem num berço privilegiado. A moeda desse nosso mundo é o sonho: quanto mais sonhos, mais valor, poder e fama a pessoa adquiria. O preço do sucesso paradoxalmente seria a provável deficiência do seu filho. Estranho... isso trazia certo equilíbrio àquele mundo, pois as classes dominantes não poderiam passar seu legado para seus filhos.


O meu sonho mais marcante foi o da minha morte. Queria chegar o mais alto possível, tocar as estrelas e quem sabe chegar próximo ao sol. Desobedeci aos conselhos dos meus pais que sempre falavam que não deveríamos sonhar tanto, nem querer chega tão alto. Mas eu não os ouvia, falei que num mundo de sonhos tudo seria possível e que eu queria muitos sonhos, principalmente esse de ultrapassar os limites da estratosfera. Inocente, nem sabia que se eu possuía a habilidade de sonhar foi porque os meus pais me permitiram: o sonho de ter um filho saudável ultrapassava quaisquer desejos pretensiosos. Sem medir as consequências, fui ao encontro da estrela mais próxima, entretanto, antes de sair da terra, desmaiei com o ar rarefeito e caí como uma bala no solo. No final, eu assolei os meus queridos pais e eles nunca mais tiveram sonho algum.


Em fim, fiquei imensamente traumatizado e com um imenso remorso desse acontecimento fúnebre. Acho que nenhum marselhês nunca passou por tal sufoco, nem o Conde de Monte Cristo. Desde então, mesmo com os meus inúmeros sonhos, nunca mais me vi voando em nenhum deles. Melhor deixar tudo como está e não mais persistir nessa habilidade não humana; melhor esquecer os céus e conformar-me com a engenharia submarina; antes que os sonhos desse pobre marselhês morram de insônia.

domingo, 9 de maio de 2010

CONTO DOS OGROS


Primeiramente, não pense que quem narra este conto é um ogro, pois este ser é verbalmente desprivilegiado. Seu potencial desemboca naquilo que se vê, naquilo que se sente, mas não naquilo que se expressa. Em outras palavras, posso afirmar que um ogro simplesmente vive baseado em instintos. Tudo que ele vê deseja tocar e tudo que sente o convida a revidar. Não é por acaso que ele é o alvo das campanhas publicitárias das pornografias, assim como proliferador da violência e do sexo. Gente, por falar em sexo...


Calma! Também não sou uma feminista tão radical assim. Até gosto dos ogros, porém em contextos bem restritos como, por exemplo, na cama. Ogros possuem seus instintos reprodutores bem preservados, tanto que se reproduzem com muita facilidade e proporcionam mais prazer do que outras espécies animais. E é nessa fraqueza, refiro-me ao sexo, que nós mulheres nos rendemos a esses virtuosos acasaladores.


Em termos de sexualidade, vale ressaltar que os machões, essa raça preconceituosa que se acha favorecida, vêm a cada dia trazendo revelações: dizem por aí que o ogro de hoje é a mulher de amanhã. Isso seria mais um paradoxo?


Entre seus defeitos, com certeza os ogros têm seus preceitos firmados na cafajestagem, mediocridade e desumanidade. São meros corpos que sustentam uma cabeça que, por sua vez, serve unicamente para guarnecer os seus cabelos – isso quando os têm. Cachorros! É repugnante a ação que todos desempenham. E não é raramente que a nossa classe se rende às suas armas de sedução (danças do acasalamento) resultando em: casamentos (frustrados) e filhos (abandonados).


Profissionalmente desempenham as atividades que têm mais habilidade, geralmente envolvendo números, graxa ou corrupção: refiro-me aos engenheiros, mecânicos, políticos e advogados. E nós, mulheres, com nosso espírito maternal, carregamos os fardos da saúde e educação. Estes resultam injustamente em: estresse e salários menos remunerados. Mas estamos dominando o mundo e invadindo todos os campos de atuação...


Em fim, mulheres unidas, devem continuar unidas! Não nos toaletes, mas nas sindicâncias e protestos para um mundo melhor. O poder tem que ser descentralizado, tirado das mãos dos sem cérebro. A mulher tem sede de vitória e validou a teoria da evolução de Darwin: quanto mais sofrimento mais garra atingimos!

***

- Moça, aconteceu alguma coisa? Por que choras?

- Quebrei minha unha! Ah, Sniff!

- Calma.

- Não estou nervosa! Estou bem... Só preciso de um tempo! Sai!

sábado, 8 de maio de 2010

CÁRCERE ENSAIADO


Dor e ódio juntos levam-me ao arrependimento de uma vida. Melhor dizendo, arrependimento das muitas vidas que eu roubei, pois sou um ladrão de almas. Tenho um prazer deleite em sacrificar todos aqueles que causaram algum mal nessa terra. Sim, eu sou um justiceiro, mas meus atos pararam por aqui, no cárcere. Meu corpo está debilitado e aprisionado, contudo meu espírito continua seguro e com seus ideias vivas. Pensando bem... eu não estaria tão arrependido.


Sou o Robin Wood da modernidade! Não roubo dos ricos para guarnecer pobres, todavia elimino assassinos, evitando que lágrimas se derramem antes de serem enxugadas. Ainda assim, sou considerado perigoso por fazer justiça com as próprias mãos. Fui extremamente perseguido, enquanto os verdadeiros ladrões de almas inocentes foram esquecidos... Além disso, deram-me nomeações nunca desejadas: Matador, Maligno, Psicopata, respectivamente ferindo minhas ações, minha moral e minha mente. Hoje vegeto entre metais paralelos que simplesmente matam-me aos poucos - e aos outros, pois cada dia nessa cela representa a morte de algum inocente.


Tudo há um lado positivo. Atualmente posso ser a minha própria cobaia, o meu material de pesquisa. Como bom psicólogo que sou (ou que fui: reformado) não deixo de avaliar o comportamento humano nem por um minuto. Agora posso ver meticulosamente todas as falhas no nosso sistema penitenciário. Isso aqui mais me parece uma pós-graduação em periculosidades do que um esquema reabilitador. Aqui se entra mal, sai-se um demônio. A falha do sistema é dar murro em ponta de faca: como dar consciência moral e construir valores em personalidades formadas num mundo de trevas? Como reabilitar indivíduos que não têm percepção das suas atrocidades, pois o mal (roubar, matar e destruir) nesse ambiente é encarado com naturalidade. É por isso que fiz das minhas próprias mãos a solução.


Algumas pessoas acham que eu sou um louco, apenas porque troquei uma vida tão estável no comodismo militar, por aventuras sem retorno ou futuro algum. “Por quê?” – todos pensam. Talvez o sangue das minhas vítimas-algozes me alimentasse. Além do mais, por ter certeza de que esta seria a solução. Leitor, minhas palavras agressivas podem estar definhando minha credibilidade, mas não sou um militar moralista louco! Entendam: eu salvei numerosas vidas, eliminei muitas tristezas alheias, promovi e perdurei o bem-estar de inúmeros familiares que subitamente poderiam vivenciar o caos pelo luto deixado por um criminoso.


Resumidamente, a grande maioria dos profissionais trabalha proporcionando afeto, eu trabalhei evitando ódio: conflitos e traumas nunca foram vivenciados pelos meus não-pacientes, graças a mim. Eu curei a depressão de muitas mães, por elas não perderem os seus filhos. Guardei a honra e a dignidade de muitas mulheres, por elas não serem violentadas e estupradas.


Hoje as pessoas me estigmatizam como um insano, como um militar retardado pagando o preço por tentar ser deus. Freud, em seu tempo, também não teve merecido valor com seus estudos em torno da sexualidade; ainda assim, atualmente até a corrente mais anti-psicanalítica deve de beber seus ensinamentos. Talvez o mundo ainda não esteja preparado para me compreender... Quem sabe eu não tenha nascido um cientista póstumo?

***

- Doutor? Ai meu Deus! Doutor!? Você está me ouvindo?

***

Vindo de uma visão embaralhada para a nitidez, dos sons distantes e repetitivos como um eco para uma estabilidade sonora, o Doutor foi retomando sua consciência. Ele despertou de um transe induzido, realizado por sua secretaria sob suas orientações.

***

- Quanto tempo eu fiquei apagado? Duas horas e meia?! Como pode me deixar assim?! poderia ter entrado em coma. Tive alguns insights tenebrosos, pude sentir na pele o que é estar encarcerado. E ainda estou meio afetado com esse meu eu justiceiro. Entretanto o que mais me arrepiou foi estar perto deles.

- Deles quem, Doutor? Ai, fiquei tão preocupada. Pensei que não voltaria mais: os seus olhos estavam com movimentos rápidos e paroxísticos; falava sobre coisas estranhas, como assassinatos e prisão; além disso, o senhor babava muito. Fiquei temerosa. Tive que até desmarcar dois pacientes. Não me peça para fazer isso de novo, por favor. ...Mas pertos “deles”, quem?

- Melhor, não. Você não poderia entender. Isso precisaria ser sentido. É uma longa história que rende um ótimo ensaio.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Saída de Emergência


Há certa banalização do suicídio, ultimamente. Observei esse tipo de coisa quando disse com veemência que, voluntária e intencionalmente, daria cabo da minha vida. Meu interlocutor, revirando os olhos oblíquos, disse com mesma intensidade: “Que novidade”! Não é todo dia que alguém disse que vai se matar.

Esbarrei-me com um ou dois autodeclarados suicidas. Acho que o pior de se ter motivos pessoais para se suicidar é o fato de não o conseguir. Talvez seja por isso que ninguém mais acredita em alguém que diz que vai se matar. Também, pudera! Tanta gente tenta, porém, não consegue.

Na falta de criatividade, busquei no Google “formas eficazes de se matar”. A quantidade de resultado é infinitamente maior que o número real de suicidas no mundo. Um detalhe chamado paradoxo. Vi lá que morrer com dor é indigno para alguém que quer morrer para parar de sofrer. Lógico, de certa forma.

Encontrei uma a minha cara. Juntei todos os ingredientes – que, por motivo de manter o número de seguidores e leitores do blog, não os revelo – em um copo de 250ml. Tomei tudo, sem deixar uma gota no fundo do copo. Apertei a mão direita sobre o peito para sentir meu coração. Nada aconteceu, até agor cbvbfdgnknbusgbhsnutyvnosyçbc*

* Jovem morto é encontrado em seu quarto, com a cabeça sobre o teclado do computador.
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