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.: Um Gole De Ideias :. -> Dois anos no ar!

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domingo, 29 de março de 2009

CARTA PARA O ALZHEIMER


Inesquecível Alzheimer,


Da data de hoje não me recordo, mas paradoxal às minhas capacidades, eu nunca me esquecerei de você, ainda que com minha memória vacilante. Expressarei aqui parte da indignação que detenho à você. E gostaria de algumas respostas também.


Primeiramente, gostaria de saber o porquê do roubo da minha história? Saiba que a lapidei com muito esmero. Meus momentos foram singulares, deste modo insubstituíveis. Não há dinheiro no mundo que os substitua.

Lembra-se daquele neurologista que nos apresentou? Maldita foi a hora que minha filha me exigiu aquela consulta! Aproveitando-me da primeira fase que passei à sua presença (dita leve), deixei claro que você não era bem-vindo. No entanto, de maneira invasiva você adentrou minha vida. Sem escolha, fui obrigada a selar o contrato do “até que a morte nos separe”, e pior: com comunhão de bens.


O que outrora deveria ser compartilhado, fora retirado de mim à força. Não bastou-lhe ficar apenas com minha memória, fez questão de tomar posse de minhas outras capacidades intelectuais (pensamento, linguagem, raciocínio, etc...) e por ora, sei que almeja levar minha independência também. O que fiz pra merecer esse carma?


Nessa semana, li no jornal que você também tem agido da mesma forma com outras pessoas. Além disso, li sobre o seu planejamento de ataque em massa, aproveitando-se do aumento da expectativa de vida da população. Era o que faltava: mais um terrorista germânico, mais um holocausto.


Devaneio enquanto posso: desconfio que esteja fazendo uma reserva de conhecimento. Vou mais longe: desconfio que vocês, alemães conservadores e ríspidos, tenham feito isto ao longo de toda história. Talvez, seria esta a causa de toda a intelectualidade de sua pátria-mãe. Sim, o governo está por trás disto, e você trabalha para ele.


Suas intenções me angustiam. Remoem em mim numerosos sofrimentos. Já estou depressiva por saber do declínio cognitivo que caminha gradativo ao lado do meu andar debilitado pela idade. Por saber que não mais poderei expressar-me verbalmente e, não mais poderei escrever uma carta - talvez esta seja a última. Por saber que não poderei controlar meu comportamento. Por não conseguir me alimentar sozinha e não mais poder comer os meus pratos favoritos devido as dificuldade nos mecanismos da deglutição.


Fora o desígnio de demente que sem chance de recusa aceitei, peço que ao menos deixe-me algumas recordações da infância, a qual vivenciei em inocência as mais radiantes e lúcidas brincadeiras.

Sendo otimista, ao menos uma coisa não conseguirá me tomar: o amor da minha família, claro. Que esta zele por mim até o meu sucumbir e que ela dê muita vida aos meus anos.


Desmemoradamente,


Aquela que te escreve, que por ora não se recorda do nome.


7 comentários:

  1. Jonathan,
    pessoa mt especial e intelectual, sábia e sarcas...
    Que nos remete através desta "carta" tão cheia de certezas e incertezas, medos e esperanças a sua serenidade e a nossa fragilidade.
    Meus singelos agradecimenos por vc ser tão sensível e tocavel e nos fazer tocar.

    Espero mais cartas.

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  2. Sua senbilidade ora me comove, ora me assusta... Vc é uma incógnita angustiante para mim...
    Ô meu amigo, oq te faz sofrer tanto?
    Realidade... realidade...
    ... somos o controle e o descontrole... O desafio é esse! ;)
    Essa carta só exemplifica...Brilhante! Parabéns!

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  3. Eu tinha muita coisa pra dizer em resposta ao texto... tinha mesmo. Mas acho que fui contagiado pelo falta de ter o que lembrar! rs

    O fato é que temos novas fontes de ideias! E obrigado por dividir comigo esses goles! Seja bem vindo!

    Um abraço! Aplausos!

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  4. Cara, excelente texto!
    Acho que você está perdendo tempo fazendo fonoaudiologia, seu negócio é Letras também!rs
    Como o Fabrício disse: "Seja bem vindo".
    Ótimo gole, esse seu.
    Parabéns!
    Abraço!

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  5. Esqueci o que eu iria comentar, Mas acredito que era algo perto de um elogio e saudaçoes de bem-vindo! Muito bom...

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  6. como te disse você é completamente complexo, sencível porém ríspido com sigo e com as pessoas. No dia que se compreender me fala pois eu já não consigo mais.

    este texto me fez chorar, fiquei completamente estática como se tudo o que escreveu vosse o meu avô que o estava. principalmente quando você fala assim:
    " Remoem em mim numerosos sofrimentos. Já estou depressiva por saber do declínio cognitivo que caminha gradativo ao lado do meu andar debilitado pela idade. Por saber que não mais poderei expressar-me verbalmente e, não mais poderei escrever uma carta - talvez esta seja a última. Por saber que não poderei controlar meu comportamento. Por não conseguir me alimentar sozinha e não mais poder comer os meus pratos favoritos devido as dificuldade nos mecanismos da deglutição".


    todo ele fala oque o meu "pai" -avô- passou foi muto triste, e realmente nós nunca o esqueceremos pois, ao memos em minha vida, ele foi muito especial e foi este homem com parkinson, nervoso e bravo que me mostrou como deveria me comportar diante da sociedade e de DEUS.

    O "seu" Vicente que tanto me faz falta!

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  7. Perfeito!!Quem mais poderia ser assim tão quanto ao escrever este texto?? Sua linguagem culta nem preciso dizer que adoro apesar de você não conseguir ser coloquial no seu dia-a-dia e tudo ao redor...bjus ficou magnífico.

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Muito obrigado pelo seu comentário (dose)!

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