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.: Um Gole De Ideias :. -> Dois anos no ar!

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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Preliminares [um caso quase real]


O procedimento foi marcado para as treze horas, mas já as dez o médico se encontra vestido de uma bata estéril e conferindo se a equipe está a postos. Do outro lado a paciente, ansiosa, apresenta a documentação necessária na recepção, assina termos e mais termos de responsabilidade. Ela só pensa: é o filho que a gente sempre planejou; e vê em resposta o olhar esperançoso do companheiro de anos.

O médico, certificado da eficiência de sua equipe, circula na sala cirúrgica. A paciente então surge, o médico a recepciona de forma cordial. O velho tenta tranquilizá-la lembrando do milagre da maternidade que a espera, e ela com lágrimas nos olhos sorri em resposta. Ele se lembra de quantos casais já beneficiou com seus métodos de fecundação ousadíssimos. E envaidecido afirma: vai dar tudo certo!

Todos em sala. Anestesia em andamento, mãos deveras limpas e adornadas de luvas cirúrgicas. O corpo nu já nem reclama a posição vexatória. Corpo sedado. Olhos se entreolham por cima das máscaras. A cabeça do calejado cirurgião fervilha de possibilidades, mas a teoria afiadíssima garante o sucesso da operação. Acabou! Agora os olhares são comemorativos. E o silêncio sepulcral de antes é timidamente preenchido por um leve burburinho. O médico conversa com o anestesista num canto da sala. A paciente, fecunda, é coberta e novamente passada pra maca. O mesmo médico faz questão de afastá-la sozinho.

E então ele estaciona a maca, monitora os batimentos cardíacos, visualiza os seios fartos da moça. Pendura o soro e confere o gotejamento, e tira o pano que cobre o ventre. A sala de cirurgia é limpa e o corredor está vazio. O médico verifica a dilatação das pupilas, e nada de despertar. Agora já sem luva nem máscara o velho se livra do cinto e das calças...

...

Uma claridade se avoluma lentamente, e o olho em fenda se abre e fecha. O sono em pleno dia nunca foi tão profundo pensa a torpe paciente. As mãos ainda formigantes esboçam movimentos de pinça, e os pés não conseguem o mesmo por se sentirem presos. Agora a claridade é mais nítida e o olho curiosamente se abre. Sinto a mão mais porca e grotesca modelar meus seios, nem tenho força pra nada. Arregalo intensamente os olhos, e vejo a crueldade do monstro ao abrir mais o soro e me fazer de novo morrer.

12 comentários:

  1. Amigo, adorei esse Gole. Do início ao fim... Estava encantado, a principio, com a condução da história, mas o final foi mais surpreendente. Confesso: não esperava por este desfecho, trágico, por sinal (adooooooooooooro).

    Parabéns pelo gole extremamente poético (a meus olhos), pois o realismo é belo!

    Um gole que paralisa, anestesia (Éter).

    PS: Vejo influências nelson-rodriguianas na sua trágica pornoarte e , principalmente, na surpresa fornecida por vc - rs.

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  2. Pornoarte?! Adooorei isso! Achei grotesco a atitude do medico em meio a um texto muito bom. E se voce se encontrar com ele, nos corredores do Hospital onde trabalha, dê um soco na cara dele pormim, ta?! Um Gole-Etilico, cheirando a látex e talco. Gostei...

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  3. Muito bom! Super atual, muito crítico e bem escrito... surpreendente, não se imagina que é uma inseminação, mas um parto... excelente!
    Apesar de uma situação tão tosca. E, infelizmente, real.
    Beijooo.

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  4. Olha, não é por nada, mas eu associei este médico do seu texto ao Gleidson! (Sei que ele vai me matar quando vir este comentário!) rs
    Eu sabia que você ia escrever sobre esse assunto!
    Só fiquei em dúvida se o Xandy postaria o dele primeiro! rs
    Que coisa chocante, né?
    Parece ficção...
    Imagino esta história num filme, e não na realidade, ainda mais no Brasil, tá certo que não é um país desenvolvido, mas isso já é demais!
    Enfim, só espero nunca ouvir do Gleidson que o sonho dele é ser ginecologista! rs

    Parabéns pelo texto, amigo!
    Abraço!

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  5. Muito bom!
    Concordo que em um momento achei que fosse um parto mas li novamente e percebi a inseminação..rs
    Parabéns pelo texto.
    A troca do narrador também foi ótima.

    Abraço.

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  6. ôôô,Fabricio! não tenho comentado porq não tenho me 'logado',mas vou no 'Gole' todo santo dia ver tem alguma novidade por lá! de Gole em gole cria-se um vicio,certo? Hoje ainda,ou nessa madrugada,eu volto não apenas a postar como também a comentar nos seus textos( a melhor parte) :P explicado????
    *uahuhausas

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  7. Falando sobre este texto: O mais terrivel é realmente histórias como estas viraram manchetes.Existe um monstro desses aqui na nossa fecunda realidade.Podre de rico,com uma face amigavel,fala mansa,amigos famosos(pacientes famosos)
    Eu que já conhecia seu trabalho pelas histórias na TV fiquei embasbacado,mas olhem logo depois encontrei uma frase de Nelson Rodrigues :"Os canalhas também emvelhecem..."
    Fabricio,quanto a você: Imortal subito! imortal subito!

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  8. É Fabrício.. É melhor vc mandar essa "história" para o Roger Abdelmassih, sabe.. Pra ele dar uma olhadinha e ver se ele toma vergonha nessa cara! Cara escroto!

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  9. Realmente uma história magnífica dá pra sentir todo o nojo em que ela sentia do médico em não pode fazer nada, tudo passando no texto tudo tão real e nojento...e mais.
    Eu não tenho palavras para descrever o que sinto deste tipo de pessoas doentes que são capazes de uma coisa tão repugnante como essa elogo nós que entregamos a nossa vida em suas mãos com toda confiança e acontece isso entre outras. Não sei se é digno de pena ou ódio, sentimentos acho que tão diferentes e tão iguais...Bjus Artista ótimo como sempre.

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  10. Zuluu,
    Amigooooo, tá otomo tudo aki!!!
    Ameiii!
    Vcs sao geniais, parabéns!!!!

    bjuuuuuu

    Bruna

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  11. aff, eh ótimo...kkkkk saiu erradinhuuu =p

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  12. Não entendi muito bem o que o Lucas quiz dizer ao relacionar o médico a mim. Com esse contexto fiquei muito ofendido!!!...Vou querer que ele me esplique isso!

    Mas emfim...
    ...
    Texto genial...você passou um realismo fantástico com a situação, um montrualidade contada de forma muito subjetiva no modo como foi escrito...clara percepição de estupro " consentido" ( por naum ter a opção de reagir), sem que fosse usada uma sequer palavra com essa denotação.
    ótimo e atorduante texto com cheiro de formol!

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Muito obrigado pelo seu comentário (dose)!

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