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.: Um Gole De Ideias :. -> Dois anos no ar!

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

cinco doses do mesmo


Foi quando ela entrou. Percebi sua presença, mas resolvi ficar imerso ali naquele romance que manuseava. Lembrei que ela sabia os motivos pra me convencer a uma briga e torci pra que não lembrasse. Ouvi os passos precisos que ela deixava no piso ao meu encontro. Meteu a mão destra no meu livro e abaixou um pouco o queixo com um ar decidido enquanto me olhava nos olhos. Não sabia o que esperar, confesso que gostei daquele ar voluptuoso que me olhava. Passei pelo decote com olhos atentos e em clima de luxúria ela pedia que eu batesse. Mastigava as frases libertas de um passado ciumento e pudoroso.


Depois de alguns movimentos de ar pela sala notei que ela havia entrado há alguns instantes. Não sabia bem que olhar era aquele, mas o jornal que lia me atualizava do momento econômico da Colombia e não estava nem um pouco interessado em interromper aquilo. Ouvi ao longe uns passos arrastados e um barulho de garrafa abrindo. Por cima do jornal vi um caminho marcado por acessórios que indicavam a cozinha. Abandonei o jornal e depois do selinho de costume ela me interrogou sobre o cartão de crédito. Na mesa da copa passamos pra assuntos ainda comuns e fizemos amor naquele tom de coragem e rotina.


Logo após me assentar na poltrona favorita, bem após apoiar minha revista de esporte na barriga e arrumar meus óculos no nariz, ela chegou. Vi de longe aquele jeito preguiçoso de dizer que me ama. E o meu jeito automático de repetir o mesmo. Caminhei o longo corredor a lhe lembrar do jantar de confraternização do meu emprego. Ela insistia em falar dos alunos. Lembro de quando ela chegava e fazíamos amor. Senti que uma melancolia ofuscava meu olhar. Pensei em retornar a minha revista, mas ela parecia querer me dizer algo. Nunca vi desmanchar esse tom preocupado que ela tem. Disse “deixa pra lá”.


Olhei o relógio e novamente a mesma revista que estava por cima da pilha. Levantei da poltrona e fui à janela. De novo à poltrona. E novamente à janela, ela saia de um carro diferente. Não era nenhum de nossos amigos. Não vi a cara do sujeito, nem anotei a placa. Sentei passivo no meu lugar na sala e esperei que entrasse como faz sempre. Ouvi seus passos decididos e assustei-me. Lamentei pelas ligações que meu cérebro realizava. Ela abriu a porta e mastigava frases num tom liberto que não apontavam necessariamente para mim. Recuei meu senso de idoso e calei-me no mesmo lado da cama.


Ao invés do sofá escolhi esperá-la na portaria de nosso prédio com a chave do carro na mão sugerindo um jantar diferente. Senti que fazia exatamente a coisa certa e que ela se orgulharia de nosso casamento. Usei meu melhor perfume e coloquei a camisa que ela sempre elogia. Conferi as unhas e o brilho da aliança. Fui pra mais perto do carro visto que este era o exato momento que ela costuma chegar. Todos os dias religiosamente neste horário. Todos os dias tenho tempo de chegar primeiro e descansar a mente. Qualquer clima não resistiria à tamanha surpresa e eu me animava e sustentaria aquele clima por muito tempo se não fosse seus nada rotineiros quarenta e cinco minutos de atraso.

Um comentário:

  1. Ótimo texto. Serve de inspiração. Bom achar onde ler algo interessante, hoje em dia isso é difícil. Parabéns.


    http://www.addemas.blogspot.com/

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Muito obrigado pelo seu comentário (dose)!

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