Seria o amor mesmo atemporal, como dizem os ignorantes, os poetas ou, simplesmente, os apaixonados? Mas, e o prazo estabelecido para este sentimento nascer e se desenvolver que trás a Neurociência? Segundo esta, amor não é assim tão fácil, que vem como tempestade mesmo depois
de uma seca, amor é algo sério.
Amor não é "semeado no vento", é construído através de momentos e momentos de conquistas... É um re-apaixonar sem fim... É a paixão já cansada cedendo espaço para o amor (mas ainda assim a paixão insiste em ficar).
Quer saber!? Quando se trata de amor, a ciência está bem limitada se comparada aos conhecimentos dos que a vivenciam. Além do mais, o amor não é objeto de estudo! E se fosse, seria insolúvel, assim como a origem do universo ou deus: ele não pode ser entendido através um método científico - o amor é metafísico (!). Acho que nem pode ser entendido, na verdade. Ele apenas é ou está no ser... Está em mim e em você, ao que me parece. O trecho “ao que me parece” significa deixar em dúbio o sentimento alheio. Árdua tarefa pra quem ama cega e incondicionalmente alguém.
Atenção! Os efeitos colaterais dos que são amados podem ser catastróficos. Muitos nem suportam a difícil tarefa de serem amados. Em meio ao tamanho do sentimento que cativa, que acolhe e que almeja o melhor para o outro, uma pergunta se forma: como pode alguém que é abraçado pelo amor rejeitá-lo? Ficaria sem resposta, mas Drummond já se encarregou de justificar isto: “amor é privilégio de maduros” e há quem nunca em vida amadureça, mesmo embora pleiteie a velhice.
Por fim, toda essa complexidade do amor, que insiste em não ser compreendido me leva a crer na irracionalidade da sua forma. Porque ninguém poderá explicar como é vivenciado anos de prazer num relacionamento que sobreviveu poucos dias; nem amores à distância; nem amores à primeira vista; nem amor algum. Mais uma vez este prosador, que insiste em justificar ou desvendar este sentimento arcaico, fica sem uma conclusão ou desfecho plausível para o leitor que buscava neste texto alguma resposta.
Ontem eu mandei flores para a minha amada, mas ela as recusou. Além disso, descobri que ela me ridicularizou com as suas amigas. Qual homem em sã consciência, em 2010, enviaria flores para uma mulher? Eu! Sou o último romântico. Contudo, essa e outras manifestações obsoletas romântico-amorosas levam-me a angústia de uma eterna vida de solteiro.
A origem do meu comportamento foi um excelente modelo de casamento. Meus saudosos pais sempre viveram num clima amoroso tão contagiante que era quase impossível eu não acreditar no amor incondicional. Desde criança, percebi o quanto ele eram felizes: pareciam que se complementavam e que eles nunca poderiam existir plenamente sem o outro. Sabe a história das metades da laranja? Acho que foram eles que a inventaram. Enfim, acabei bebendo de uma fonte de amor inexaurível.
Meu pai sempre me ensinou como conquistar uma mulher, bem como satisfazê-la. Certa vez ele me disse: “mais difícil do que conquistar uma mulher é manter a chama do amor acesa. Todos acham o amor complexo, mas o segredo do seu sucesso está nas medidas simples, Filho. Devemos agir de maneira simples, porém inesperada”. Meu pai dava presentes para a minha mãe em datas inconstantes. Quando ela o perguntava sobre o porquê daquele presente, ele sempre tinha uma resposta cativante: “por que eu te amo”, “por que você é a mais linda das mulheres”, “por que sem você não vivo”...
Como dizem: “Filho de peixe, peixinho é”. Sou o homem que mais entende os sentimentos das mulheres. Pena eu ter nascido na era do desamor. Lembro-me dos meus namoros, consequentemente das numerosas cartas que já enviei. Minha ex-namorada me chamou de brega quando a enviei a primeira. “Em tempos de depoimentos no Orkut e e-mail, você me envia uma carta”?! – disse a desnaturada. Mas não para por aí...
Lembro-me que namorei uma menina que morava no primeiro andar de um apartamento nobre da Barra da Tijuca. Isso era extremamente convidativo para uma ação romântica. Assim, fiquei por volta de duas semanas trabalhando numa música para ela. Adivinha o que eu fiz? Não, eu não gravei um vídeo e coloquei no You Tube! Tenta de novo, leitor. Alô, gente, eu fiz uma serenata! Não, isso não é bombom, o bombom que tem esse nome por causa da serenata; que nada mais é do que uma cantiga de amor entoada para sua amada à noite, sob sua janela. Poxa! Ela alegou ficar extremamente constrangida com aquilo e terminou o nosso namoro. O bom foi que pelo menos ela não me jogou o famoso balde de água fria na cabeça.
Já fiz de tudo para agradar as minhas namoradas: viagens paradisíacas, jantares românticos, ligar depois da primeira noite de amor (isso é demasiado difícil para homens)... Mas nada disso funcionou! Como o mentor dos meus relacionamentos está morto (papai), decidi pedir opinião de um grande amigo namorador. Queria saber o que ele fazia para preservar os seus relacionamentos. Ele não tinha o que dizer, pois realmente ele não se esforçava em fazer nada excepcional. Eu insisti: “nada mesmo? Lembre-se, deve haver alguma coisa diferente”. Ele me respondeu: “Não faço nada demais, aliás brigamos o tempo todo. Acho que ficamos juntos por necessidade, mesmo. É, necessidade! É tudo tão chato, tão monótono... namorar é uma maneira de compartilhar o ócio e as carências, uma maneira de extrair alguma coisa do nada”.
Depois daquelas palavras, achei que havia recorrido à pessoa errada, mas não foi. Conversando mais um pouco com o meu amigo descobri que ele pagava algumas contas das suas namoradas. “Contas”?! – surpreso reagi. Fiquei impressionado, até porque o meu amigo não é nenhum rico. Fiz a experiência... Bingo! Funcionou, porém não fiquei nada feliz com um relacionamento comprado. Logo terminei - solteiro.
No final, desesperado, resolvi recorrer à internet, colocando esse anúncio num site de relacionamentos.
Jovem de 25 anos procura pessoas tolerantes ao romantismo
Tenho 25 anos. Não mencionarei meu tipo físico, pois quero alguém que me ame por minhas ações. Desde já, deixo claro o meu grande defeito: sou o último romântico. Procuro por alguém que gostará de receber cartas de amor, poesias, músicas românticas, ligações diárias e elogios sinceros. Quero também alguém que valorize minhas intenções de amar incondicionalmente e que esteja disposta para ser amada. Observação: sou órfão, portanto você não terá sogros. Se tiver interesse em me conhecer, segue e-mail para contato: ultimo-romantico@umgoledeideias.com.
***
Finalmente, o anúncio funcionou. Na semana seguinte, recebi inúmeras propostas de encontro, no entanto havia um pequeno problema: todas as pretendentes tinham mais de sessenta e cinco anos. Volto a estaca zero.
Novamente o vento revirava seu cabelo e o seu destino sólido dizia sim ao meu. Era tarde, mas aquela tarde coloria meus sentidos ao passo que seus passos alforriavam-me. O vestido ondulava em primavera e os lábios sorriam em tom maior. Aquela paz de criança dormindo deu lugar para um êxtase discreto que me acendia desejos de pele. Ah!, pulsa coração em samba. Da esperança tanta, mal sabia se restou.
Ao olhar em minha direção não tive outra reação senão calar-me de palavras e intenções. Por quase um segundo em nirvana senti-me monge tibetano para receber um milagre. As cordialidades dessa vez não ressoaram para que todos ouvissem se limitaram a precisão do olhar. Eu a cortejei e ela, linda, respondeu sutilmente fitando o chão.
Aproximando-se mais notei certa ânsia no seu olhar. Contive-me, e apreciei ferozmente a suavidade de seus movimentos. Ela pendulava os braços harmoniosamente e chegava sem pressa a minha presença. Dois passos ainda nos separam. Dois preguiçosos passos distanciam minha boca dos lábios dela.
Chegou. Ela chegou e ao invés de agarrá-la meu corpo em esfinge freou-se para passivamente retratá-la a memória presente. Eu senti a respiração calma e sua pele fresca cheirando sabonete. Talvez ela não vivesse com essa intensidade toda, a prisão moral nos enclausura em certas liberdades. Naquele instante tudo isso se rompeu e minha boca tocou a dela sem pudor nenhum, mesmo que a mente pulsasse sem querer o nosso sobrenome comum.
Escritores que emergiram de uma simples ideia: expô-las. “Tudo vira Gole” – esse é o nosso lema. Sem mordaças e enclausuramento temático, fazemos de qualquer assunto uma rica produção: do humor a tragédia, das criticas sóbrias ao desdém.
O primeiro gole de ideias...
- Um copo de uísque! – Pede o moço, com uma capa de chuva escura, respingando água pelo assoalho desbotado. - Temos idéias! – Disse o garçom aparecendo, com uma flanela ocre, cheirando a desinfetante. O cliente deixou o guarda-chuva cair. Balançou a cabeça, de forma resignada e disse: - A minha, então, é dupla e sem gelo!
Embriaguem-se de grandes ideias!
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