Todos acham que nossa estória está às mil maravilhas, eu nego. Dizem que teremos um final feliz, mas honestamente... eu desconfio. Nossa fábula é um mundo mágico sem tijolos amarelos, à propósito gostaria de saber quem inventou esta história. Aqui só há asfalto negro e, amareladas são apenas as listras que o cortam. Todos aqui têm tantos problemas, especialmente eu, Leão do Gole. E claro, tem gente que se impõe problemas – falta do que fazer, mesmo.
Nossa! Aquele manequim de ferro-velho só sabe reclamar. “Vive” com a cisma de possuir um coração achando que esta peça lhe trará vantagens. Pobre amigo Gole-de-lata. Ah, não! Não compreendo porque as pessoas ficam comovidas com o ele. O dissimulado forja sua angústia, por um querer desnecessário. Para que um coração?
Porque o chamo de dissimulado? Claro, ele é desprovido de sentimentos e ainda assim, ostenta uma dor emocional devido à ausência do órgão que poderia proporcionar-lhe o sentir. Histeria seria sua moléstia ou seria ele apenas um maria-vai-com-as-outras, mesmo? Só porque vivemos numa fábula repleta de morais acerca dos sentimentos, obriga-se a obter este poder humano. Para quê tanta cobiça, invejoso!? Ora! Se este pecado capital é advindo do coração, como pode tê-lo em sua ausência? - não há nada mais paradoxal. Já sei: estamos na era digital, é provável que viera com programação de fábrica, o “Software do Querer ®”. Como não pude pensar nisto antes?
Tanto querer por um órgão atrioventricular, vazio... No entanto, o possuo e não o uso eficazmente. Sei lá, deve estar estragado. Sofro todas as paixões possíveis, do amor ao ódio. Ainda que haja plácidos sentimentos, marcho num caminho sem brio algum: pois se tenho amor, falta coragem para expressá-lo - deste modo nunca o compartilharei. O que é o Leão sem sua coragem? Diga-me!
Eu quero, mas ainda não obtive forças para aconselhar Gole-de-lata. Se eu pudesse colocar alguma coisa naquela cabeça oca... Entretanto seria dispêndio do meu precioso tempo - uma tentativa frustrada. Bem, existe um meio alternativo que nos ajudaria.
Um único desejo nos supriria: já que sou desprovido de coragem, com um coração oco que não desempenha suas virtudes, eu o retiraria para ofertar-lhe ao meu amigo. Afora, viver sem ele seria algo fantástico. Viver sem esta caixa pulsante no peito que me sufoca, poder arredar-me das dores, libertar-me das emoções e viver em plena razão: ah, como eu queria! Ser mecânico seria o melhor remédio para minha depressão. Nunca me encorajei a ir ao psiquiatra - claro, pensariam que estou ficando louco. Mas segundo os meus livros de autoajuda, minha depressão é proveniente de uma baixa autoestima.
Agora só me resta encontrar o Mágico-do-gole e evidenciar esta tão lucrativa proposta - realizar dois desejos de uma só vez. Contudo, sabe aquele remorso que brota no peito por querer fazer barganha? Sinto isto agora. Meu amigo de lata vai ser lacerado pelas emoções animais, coitado. Mas se eu parar para refletir, após a retirada do meu coração e seu posterior transplante no Gole-de-lata, nunca mais terei remorso algum. Então, o farei ainda hoje!
***
Após o monólogo diante do espelho de sua penteadeira, Leão deitou-se à cama. Suas propostas nunca passaram de um ensaio. Ele nunca referiu uma palavra para o seu amigo Gole-de-lata e tampouco se encontrou com o Mágico-do-gole. E em seu peito reinam inquietantes pulsações que o assombram em leito. Queria ele bramir de raiva, ou ao menos se aliviar, mas nunca conseguiu vociferar nada.