
Ainda sofremos hoje com estereótipos do idealismo do amor romântico. “O amor é lindo”, suspiros e versos açucarados. Essa confusão de hormônios, melhor explicados pela superinteressante que por Camões, não passa de um primeiro e entusiástico momento. O amor é fruto de um árduo trabalho. A convivência, a TPM, sentimento de posse, ciúme, greve de sexo... tudo isso não cabe em um poema e passam como sintomas comuns depois de retratados em reportagem.
Verdade é que quando o corpo sinaliza o primeiro e delicioso sintoma que o mal está por vir, instantaneamente ignoramos as relações mal resolvidas do passado. Começa então a dança dos corpos epiléticos. “Amor é prosa, sexo é poesia”, adorável Jabor, você tem toda razão. O amor é uma prosa densa e objeto de estudo de todos os que se aventuram, e uns outros passivos também. Os poetas nunca tentaram defini-lo, pelo contrário, ofereceram às palavras o consolo de chegar perto desse vício tão recorrente entre os humanos.
“Amor é fogo que arde sem se ver” é... Camões! E como arde! Das delícias as alucinações, ou paraíso ao inferno. Nunca vi antítese tão bem construída: amar. Trás em si mesmo um balsamo e uma bofetada. As faces ardentes do primeiro erro tão degradável, perdoam só por perdoar... e se arrependem e se ofendem e se chocam e se aterrorizam e se ameaçam e se beijam. E como que num segundo, que é menos que um segundo, derramam-se em declarações silenciosas.
Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Bentinho e Capitu, Basílio e Luiza... Incontáveis exemplos na arte que vem da vida, que é mimese da vida como Aristóteles já dizia. Longe da arte a vida trás objeto imensurável a ser copiado. Minuto a minuto o corpo de vários terráqueos ora produzem ora mantém ou ora destroem amores. Como num ciclo hindu o amor se renova e garante a manutenção da arte por gerações.
Teoria salva, o amor não é tarefa simples. Não me arrisco em poesia tão gratuita e publicamente. Os meus versos e o meu lírico só soam a favor de um belo e recorrente refrão: Eu te amo! E destinam-se a uma musa perfeita que a entronizo e me torno vassalo. Como naquele velho amor das cantigas trovadorescas, como aquele velho amor que critiquei no começo do texto. E por fim, tão perto a data mais solitária pros sozinhos e mais par pros casais, desejo: coragem, paciência e falta de pudores aos que se atreverem a ter com o amor.