Resolvi adiantar minha carta de morte. Há indícios que a tal gripe suína atinja mesmo o Brasil e com força. E como todos sabem nosso sistema único de saúde não tem nem condições de dar conta de ferimentos leves. A pandemia já está quase anunciada. Estamos perto do fim.
Eu poderia tentar escrever uma espécie de testamento acreditando na sobrevivência de alguns de vocês que estão a ler essa carta, todavia não sou tão otimista assim. A importância de celebrar com os amigos as poucas linhas que me restam me fala mais alto neste momento.
Estou cuidando de cada detalhe, nem fiz questão da minha máscara azul. Tratarei logo de fingir que esse vírus não existe. Não saberia viver sem os calorosos apertos de mão, nem muito menos sem os beijos. Sou um propagador nato.
E vêm logo as comparações: gripe espanhola, gripe asiática, gripe aviária... para que tanta gripe meu deus? E lembro logo das inevitáveis previsões apocalípticas: as pestes. Enfim tudo colabora para que minha paranóia me enlouqueça.
Ainda a pouco ouvi um infectologista dizer que em seis meses podemos ter a tal vacina contra o vírus, não é animador? Não, não é. Ele percorreu toda a América do Norte e central em menos de um mês. E agora já está na América do sul. É só uma questão de transporte para ele tomar a Europa que a merda estará feita.
Por tudo isso, a partir de hoje minha vida está em regime de urgência. Todos os amores descartáveis assumem em definitivo. Os amigos novos foram evoluídos para os de infância. As crônicas virarão livros. E tudo que direi ou disse tem de ser levado a sério, como a gente costuma fazer com aqueles pacientes que estão prestes a morrer. A vida ganha instantaneamente um ar de beleza última, a qual tem direito. Deixo aqui um aceno derradeiro a todos que leram meu último gole. Partirei com meu copo ansiando por idéias/goles de outros povos que não tive acesso. Foi um grande prazer escrever com vocês! Fui...





