UM GOLE DE IDEIAS

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.: Um Gole De Ideias :. -> Dois anos no ar!

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cadarço Colorido

Hoje tive vontade de pôr cadarços fluorescentes no meu all star. Não sei se por tendência a essa nova moda que colori o espaço antes monocromático do rock ‘n roll, ou por simples chance de comunicar aos meus pés um estado qualquer de felicidade; na ânsia meio desesperada de chegar um resquício que seja de sorriso a minha mente por muito cética às atividades positivistas.

Claro, que apesar da vontade, não colocarei os tais adornos no meu velho calçado. Justo ele que sobreviveu ao movimento Grunge e deixou uma herança aos contemporâneos desde os anos oitenta. Justo ele que passou pelo furto dos Emos que fizeram isso com muitos adornos que há tempos pertenciam ao rock de verdade. Agora os coloridos ainda têm um quê de particularidade, mesmo com o assalto do all star, mas com modificação. Invejo essa felicidade toda. Talvez só os mais jovens consigam essa alegria que quase nega a nossa condição de humano. A felicidade é inteiramente inadmissível!

Mesmo que dissesse aos meus pés, mesmo que me rendesse aos solavancos da música da moda, e mesmo que bebesse Ice, nenhum estado pleno iria convencer minha mente já entorpecida pelos desafios rotineiros. Prefiro alguma coisa mistura com vodca e o velho violão a entoar canções dramáticas do Nirvana, ou ainda a melancolia do Legião Urbana e Los Hermanos. “I’m so happy cause today I found my friends”. Chega a ser engraçado imaginar o Kurt dizendo isso. Justo ele falando de felicidade... Ironia fina e elegante.

Hoje, quando quis aos meus pés aquela felicidade, imaginei na esperança meio utópica que qualquer que fosse a mudança seria bem vinda. Não acredito mais nisso. A música mostra a qualidade e os defeitos dos seus autores e ouvintes. Não pertenço a essa série de alusões contentes a contemporaneidade. Admito que não consiga entender também. Sou velho a essas concepções, mas vejo algo de saboroso neste tipo de comparação. Consegui a nostalgia comum de dizer o que sempre me disseram: antigamente... ou naquela época...

E lamentar o desperdício de qualquer coisa ou a falta de outra não é sinal de amadurecimento, vocês sabem. A nostalgia ou saudosismo só mostra a inadequação a algo novo. Talvez volte a escrever sobre algum verso de uma música do Restart; talvez tente conquistar alguns aplausos coloridos aos meus escritos. Mas por enquanto minha mente obedece a um critério meio indomável que insiste da solidão temática da inadequação. Perdoem essa ignorância toda de fundo preconceituoso. Mesmo que não use os tais cadarços, invejo a felicidade com que vocês brincam de viver.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Condenada

Vera,

Sei que me deixou esse e-mail para agarrar-me às tuas coisas caso tivesse coragem em romper com as minhas. Ainda não é isso que faço agora. Meu casamento, como sabes, é controverso a tudo que sonhei um dia. Evitarei os nomes aqui, confio na tua discrição, mas duvido da passividade do seu senso de justiça. Antes de começar o que me trouxe a frente desta tela, aqui no centro da cidade, foi um peso que tenho aqui. Não preciso da tua opinião, acho que já consigo imaginar o que tens a dizer. Sei que o tempo que esteve por aqui percebeu que meu país é muito religioso. Eu sou uma afegã íntegra e mantenho-me firme nos meus preceitos religiosos que em tudo crê na instituição do casamento.

Não conhecia meu marido antes do casamento. Nunca o tinha visto e confesso que a primeira vez que nos vimos, na cerimônia, achei que pudesse ser feliz com aquele homem de traços rústicos. Desde que fomos para casa. Desde o primeiro dia de casada, percebi que não seria tão fácil assim. As outras mulheres de minha família me ensinaram a seduzir, mas me ocultaram aquele tom triste que agora entendo no olhar de cada uma. Na nossa primeira noite ele me possuiu com uma certa delicadeza. Não me incomodava o ofício de servir.

Na última tarde vi o que meus olhos ainda teimam em negar. Uma menina. Uma menina, Alá! Quando cheguei em casa, todas as portas estavam fechadas. Estranhei já desde o quintal. Fui entrando com poucos ruídos e escutei uma voz abafada que parecia implorar por socorro. Foi horrível! Quando entrei em nosso quarto, ele segurava as mãos amarradas de uma menina enquanto introduzia o seu sexo nojento nas partes dela. Aparentemente cinco anos. Ele me ameaçou quando me viu. Saí trêmula do meu quarto. Minhas pernas cambaleantes mal sustentavam meu corpo. Tentei orar, mas não me concentrava em nada. Quis chamar algum ancião que me desse razão, mas não acreditei muito nessa possibilidade. Entendi os vincos nos olhos de minha mãe. Imaginei tanto sofrimento ocultado na vida de cada afegã que você escreve nos teus relatos, Vera. Escreve isso aí.

Isso aconteceu ontem. Ainda ontem voltei a minha casa depois de duas horas. A hora que fugi ainda estava a sofrer com aquela criança. Saí de casa com a pele dela. Quando voltei era eu a estuprada. Imaginei que ele fosse tentar me explicar, mas o ímpeto de homem o fez resignado da culpa antes mesmo de tê-la. Olhou pra mim feito um feitor que escolhe a melhor cabra. Pediu que me aproximasse e num ímpeto levantou minha burca. Desafivelou seu cinto. Livrou-se das calças e da roupa de baixo. E sem nenhuma palavra doce enfiou-me seus princípios junto com a falta que ele passou a representar.

Hoje me sinto merecedora de paz e não a tenho em meu lar. Hoje quando amanheceu evitei olhar pro lado esquerdo de minha cama. Levantei-me e fui me lavar. Senti a coragem entrar pelos poros junto com a água. Cada palavra que aqui escrevo pensei no banho. Não saio desta vida desgraçada a menos que ele me mate, eu sei. Devo ainda assistir a inúmeras cenas como a de ontem. O que quero é poder contar a você o que não entendia ainda quando me conheceu. Vera, não tenho muito mais tempo por aqui. Desejo sorte com os teus escritos. Volto a lhe escrever quando puder.

Salamaleico.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Rugas e Risos


Olhares próximos, um sorriso amistoso. O quase um século que os separa parece uma linha tênue, quase imperceptível. A criança a vê como mais um rosto entre tantos que baila a sua frente. Uma visão pouco sólida. Uma descoberta, talvez.

Ela o enxerga com dificuldade, porém vê possibilidades. Um menino com caminhos e escolhas multiplos. Ao contrário dela. A jornada está próxima do fim. Quantas crianças ela levou em seus braços? Quantas ela perdeu de vista?

Dois extremos opostos, paradoxalmente, juntos. De um lado, tem-se a experiência, o que sobrou da fé e uma maneira digna de conter lágrimas. Do outro, um ser humano que ainda será calejado pela vida, aberto e, invejavelmente, ingênuo.

Início e fim de todo e qualquer indivíduo que, desavisado, se aventura pelas estradas sinuosas da existência humana. Um resultado esculpido e polido pelo tempo que, sem piedade, nos faz crescer e nos tornar diferente de quem éramos.

Aos céus, sobe uma prece: que Deus dê ânimo aos que ainda não sabem como ficar de pé e descanso aos que muito perambularam por essa vida. Com sorte, ainda veremos o menino olhando seu bisneto.

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Uma homenagem a minha avó, Ondina (foto).

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano Meu!

A rosa é pra você, lembra, tudo sempre acompanhado de uma rosa... s9

Feliz Ano Novo! – Dizem de todos os lados. Deveria ser franco e dizer que odeio esse rito de passagem de ano... Família reunida, coisas que só o natal, ano novo e enterros conseguem fazer; tias que insistem em ver centímetros a mais em minha altura, centímetros que não existem, mas se fazem necessários para que elas possam proferir o tão odiado esperado “como você cresceu, meu filho!”, ouço isso a mais tempo do que gostaria. Pra ser ainda mais franco, acho que odeio final de ano. Tanta correria pelos aguardados presentes de natal, não gosto de multidões, de gente espremida num mesmo lugar, ainda mais com esse calor escaldante que tem feito nessa época; penso em entrar em uma loja -lotada- desisto. Alguém vai ficar sem presente. Tem, ainda, as compras no mercado com a mãe e a avó, torturante! Três horas dentro de um mercado, orando fervorosamente (coisa que não faço sempre) pra que a senhora à minha frente finalmente pare de admirar as laranjas, as pegue e coloque na sacola...
Definitivamente, não vou muito com esse tal de natal. O que houve com ir à igreja e orar pelo aniversariante do dia? É esse o intuito da data, não é? Jesus? Aliás, não me lembro de ninguém comprar um presente pra ele, nem mesmo minha mãe, assídua católica de missas dominicais. Pobre Jesus, literalmente.

31 de dezembro, véspera de ano novo. A casa acorda agitada, avó na cozinha, mãe na cozinha, tias e primas na cozinha; pai bebendo em frente à churrasqueira junto com os tios e primos, a secular divisão entre lugar de homens e lugar de mulheres. Deprimente. Na cozinha fofocam sobre a sobrinha que não tem obedecido e sobre o neto adoentado. Em volta da churrasqueira discutem sobre o porquê de o Flamengo ter ido tão mal no brasileirão, soltam uma ou outra piada sobre o meu Botafogo, a maior parte da minha família é alvinegra, menos meu pai, flamenguista, que me deserdou por ter escolhido outro time. Meia-noite, fogos de artifício. Abraços e mais abraços, juntos com palavras de bom ano, com mantras de que tudo será melhor do que no ano anterior; frustração por estar em meio a tudo isso...

O ano de 2010 não foi ruim, por mais que meu pessimismo tente me mostrar o contrário. Comecei a dar aulas, é divertido, afinal. O último ano que passei por completo na faculdade, já que me restam apenas seis meses no próximo ano. Gente saindo da minha vida, por falta de papel nela ou por puro descaso com a “amizade”, talvez meu, talvez dela. Mas, principalmente, gente entrando em minha vida, gente importante, com status de papel principal na fantástica história da vida do Lucas. Minhas resoluções para 2011 são as seguintes: Quero continuar trabalhando, enquanto não me frustro completamente com a profissão de professor. Quero estreitar os laços de amizade com os grandes amigos que tenho, poucos, mas os melhores. Pretendo valorizar mais minha família, afinal, não serão eternos e são os melhores laços que tenho com o passado e os melhores que terei no futuro. Uma namorada... sim, uma namorada (frisando pra todos os amigos que não acreditaram quando leram essa parte), quero alguém comigo, alguém pra mim, por mais egoísta que possa parecer. Quero fazer alguém feliz e ser feliz junto, por conseqüência. Sei que posso, sei que consigo, sei o que eu quero. Quero você, que talvez esteja lendo esse texto, agora, que talvez esteja se perguntando se isso é mesmo pra você; sim, é pra você! Te faço feliz, prometo! Não minto, não pra você, pediu que eu não fizesse isso e eu nunca fiz, mesmo querendo, algumas vezes dizer que estava feliz pra te deixar feliz, mas acabei te deixando triste por estar triste, porque eu não podia mentir. Meu ano novo, renovado, precisa de você pra ser melhor. Você com seu sorriso, com seus olhos, seu jeito, seu cheiro... Você e eu, juntos. Penedo... Preciso de você! Preciso dos meus amigos, da minha família, preciso de mim, acreditar em mim, ter fé em mim e no que posso fazer pra que as coisas aconteçam. Me faço otimista em 2011, incrível... Bom Ano Velho! Ótimo Ano Novo! Feliz Ano Meu!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

É natal!


Olha... tá chegando o natal. Essa constatação não foi muito relevante, eu sei. Tampouco o que tenho a dizer. Acho meio mágico esse clima de fim de ano. Todos viramos filho de DEUS. E pelo menos neste dia, reverenciamos a chegada dele. Claro que com mais sofisticações do que ele, pobrezinho. Mas é por ele que estamos aqui. É por ele que fartamos as mesas e comemos tudo sem sentimento de culpa. É por ele que adiamos as dietas e as promessas pro final do ano. Outra data também festiva e próxima, o que é melhor. Voltando ao Natal, temos o amigo oculto. Célebre manifestação econômica e altruísta. O meu amigo oculto é... Especial, inteligente... “gente boa” (esse é pra ocultar a beleza que ele não tem). E a gente arruma sempre muitas formas de esconder os defeitos e valorizar, super valorizar as qualidades. E fica tudo muito engraçado. A gente sempre torce pra que aquele que tem uma rixa secreta tire este no bilhete, e a partir daí compre um presente e descreva aquela pessoa como interessante e inteligente e gente boa.

E as comidas, hein?! Baco se regozija na orgia culinária que se anuncia. Muito luxo da boca pra dentro. Da boca pra fora só frases clichês e bem comportadas. Roupas novas. Guardamos o branco pra próxima data e para esta um pouco mais de cor, exagero, barroco. Salve Deus! Salve ele do meio disso tudo. Compras, descontos fictícios... 50, 60,70%!!! E tudo continua tão caro. Carnes... Porco, frango, frango geneticamente melhorado, presunto. Presentes! Abre um embrulho, faz-se cara de surpresa. Abre um imbróglio, vê-se na tia Pomba Gira qualquer dose extra de melancolia. Toda festa, pra que seja boa, tem que ter aquele povo solitário no meio da multidão. E eu nem sei se tem que ter mesmo, ou se esse ser humano já faz parte de nossa sociedade de tal forma que não podemos o excluir de tudo. Muito menos do dia mais feliz do ano. Do dia que rezamos pra comer e abrir os presentes. No dia em que se fala rápido de Deus pra que a festa não seja interrompida.

E no dia seguinte é que é engraçado. Engov... Eno... Notas fiscais para trocar os presentes que não agradaram. Coragem pra encarar a academia. Acho que vai ficar pra depois da virada! E Faustão na televisão. Não, primeiro o Didi, né?! Enfim... Orgias televisivas. As cenas sem graça que desde a infância divertem os telespectadores. Divertem? E nessa dança de falsas esperanças, isso é o que menos importa. Ano que vem vai ser tudo diferente. Por mais igual que se mostre tudo, por mais inocente que seja a vontade. O ano se vai e vem outro. Boa noção cíclica essa, mas não é assim, você sabe. O mesmo você que bebe o champanhe na virada é o mesmo você que acorda com dor de cabeça. Tirando as expectativas só restam os mesmos espertos com coragens duvidosas diante do desesperador momento de despedida do passado quase que presente. E nesta luta temporal e cotidiana, só nos resta à febre as conquistas imediatas.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Vinho - objeto de estudo [por quê não?]

Hoje eu queria saber de vinhos. Engraçado a força dessas coisas em mim. Às vezes tenho essa vontade de me expor, e justifico isso como se os goles mais literários não tivessem nada de mim. Voltando pro vinho, percorri uma prateleira que me mostrava umas garrafas do Chile, Portugal, Argentina... Brasil, claro; e tudo, todo aquele universo de possibilidade e descrições esmiuçadas em rótulos pequenos, se mostrava a mim como uma pequeníssima variação: tinto e branco.

Ora... se há tanta gente que sacode o liquido na taça gorda. Roda. Roda. Roda de novo e cheira. Sorri com aquele jeito meio de canto de boca que significa um aceno aos outros que conhecem o código e uma porta na cara dos que não fazem à mínima, como eu. Depois bebem... bebem nada, eles devolvem aquele líquido+saliva à taça. Minha mãe sempre dizia que isso era grotesco. Costumo ver isso com um certo asco, mas confesso que agora mora uma inveja aqui. Quero saber.

O Google me disse que há tipos de uvas. Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, Tannat, Bordô… isso só pra falar algumas das uvas tintas. Olha, pra quem tem dificuldade de diferenciar guaraná antártica do mil, acho que terei dificuldades. E eu logo desconfio com um daqueles pensamentos de gente ignorante do tipo: aposto que se vendarmos um somelier ele não diferencia um tinto de um branco. Mas logo me rendo de novo à ciência. E é nessas horas que tento buscar essas coisas na internet, às vezes me frustro como agora.

Tenho uma grande admiração por esses profissionais, mas não tentaria aprender nada em livros dessa vez. Este é um conhecimento que acho que não tenho por lá. Vou bebendo cada um que aparecer na minha frente. Talvez esta seja a vantagem da ignorância: não ser tão exigente. Qualquer Cantina da Serra me diverte. Peço a todos os somelirers(não sei fazer o plural desse troço) que lerem este texto, deixem uma dica nos comentários, ou então enviem um bom vinho pro meu endereço. Grato!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Os Reis da Rua

Nunca achei que pudesse ser tão difícil chegar à janela. Bengala, primeira perna, segunda... Mão no braço do sofá, de novo a bengala. Desde cedo ouvia muitas vozes se ajuntarem lá no lado de fora, e eis que decidi me livrar da velhice e ver como uma beata de janela o mundo que vaga intermitentemente pelas ruas de minha cidade. Lá embaixo crianças parecem decidir aos berros qual será o time da pelada. Particularmente um jovem me chama atenção, ele é o mais intimidador. Noto os olhares dos outros em relação a ele. As palavras soam enérgicas e o indicador aponta o lado que os escolhidos devem seguir, e eles seguem sem titubear. Os mais fortes ficaram junto ao líder a que todos chamam “Bala”. Coincidentemente os descamisados, os robustos moleques, eram os mais habilidosos. E nesse jogo de cartas marcadas os franzinos adversários aceitavam sua sentença miúda e previsível. Dez minutos de jogo e os meninos já cintilavam de suor e verdade. Eram os campeões do mundo. No país do futebol eram os próprios representantes magnos da realidade de pequenos atletas. Ocultam-se os delitos que porventura algum dos jogadores cometeu, e a platéia se delicia nos dribles de Bala e companhia. Lá não existe juiz, e se houvesse Bala já o teria ameaçado com seu jeito rápido e déspota de resolver as coisas. Acho que agora terminou, vejo que todos caminham para o mesmo lado da rua. Não sei o placar. Sinalizam com as mãos, mas não consigo ver. Vejo daqui que alguns se sentaram no meio fio. Nas calçadas/arquibancadas uns meninos mais jovens que ficaram de fora se apossam da bola e saem procurando repetir os gestos dos mais velhos. Sinto daqui o cheiro de vida que há tempos não reconhecia. Não há em nenhum livro a imensidão que eles não só enxergam, mas vivem. Agora não mais vejo, acho que sou visto em alguma janela mais acima. Porém não tenho uma juventude invejável a ser admirada. A sabedoria não está nos livros, nem no olhar lançado aos meninos. Acho que é preciso ver a bola e se deixar suar. Correr por entre os iguais e tentar insistentemente alcançar o seu objetivo. E mesmo que não alcance, sentar-se no meio fio e sentir no seu corpo o merecido descanso momentâneo. Apagar a luz das idéias e estratégias, repousar o medo da derrota. E deixar que vida siga com seus jovens, e ver nisso a beleza que é a sua beleza. Crianças que jogam bola, e de novo o começo, e de novo o corpo que cansa, e de novo. Como num eterno campo de fazer lembranças e acertos imediatos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sexo frágil

Livros de filosofia não deviam ser permitidos aos que estão em crise. Hoje cedo alguns existencialismos me assombraram e tornaram-me demasiado frágil diante da minha vida. Em tempos de igualdade de gênero peço de volta a ditadura do falo. Que falta faz aquele já conhecido olhar masculino que aterroriza e cala numa primeira instância. Verdade é que não metemos medo mais.

Dediquei-me essa manhã a leitura e reflexões, e já penso em prover um encontro com a fêmea em questão. Mas não sou eu que provenho nada, as agendas são comparadas, analisamos as possibilidades reais para que isso aconteça e enfim: sim ou não. Seria necessário que bastasse apenas a vontade, mas o mundo para os iguais exige sim uma série de novos acometimentos. Decidi mimar o ser que me carece, fiz um prato pro almoço, ela se desfez em ânsia e pressa.

No almoço de domingo vesti meu avental, sim eu tenho um avental, ignorei a imagem que refletia na porta da geladeira e me dediquei ao almoço. Rotina nos nossos dias eu ir para cozinha. Mas ainda não estou provendo nada, e sim a privando de um serviço de mulherzinha. Ah!, quem me dera ter de volta o tempo que se existiam ainda "Amélias"!

A pluralização das informações, do acesso a gigantesca mídia erótica também mudou o nosso sexo. Uma desenvoltura sexual de máquinas, o que queremos, e quero, devo confessar. Mulheres curvilíneas e ruidosas, homens como hastes inabaláveis e viris que durem horas de trabalho intenso e dilacerante. Ufa... Só de falar chega a me dar uma dor de cabeça.

Hoje eu anseio por chegar em casa e me livrar desses pensamentos todos que a mente de um homem moderno é exposto. Existia uma tal beleza que era explorar sem ser explorado. Meu pai teve sorte neste sentido. Ah!, que saudade que tenho do tempo que não vivi. Resta-nos fazer valer essa sensibilidade toda e perceber que a fragilidade é humana e não mais, ou erroneamente ainda, privilégio das castradas. Ou o contrário como tentei afirmar. Somos iguais, mas com valores, carências, e essencialmente felicidades extremamente diferentes.

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