
Ao querido escritor Júlio Emílio Braz
Escritores todos nós somos, contudo alguns escrevem ficções tão boas que a confundimos com a realidade. Eu sou o oposto disso: como todo bom auxiliar de viagem, ouvinte de acontecimentos surpreendentes, relato fatos tão esdrúxulos que qualquer leitor pensaria estar numa fantasia. Melhor explicar: auxiliar de viagem igual ao popular cobrador. Essa denominação afasta um pouco as pessoas de mim, mas rótulo é rótulo, não se escolhe. Além do mais é isso mesmo que eu faço.
Adoro o meu trabalho, porém muitos acham que minha função é meramente operacional, uma ação cansativa e monótona. Estão enganados, pois no meu trabalho, apesar dele parecer rotineiro, todos os acontecimentos que surgem são inéditos e dinâmicos – claro que nem todos. A cada dia embarco numa nova aventura. Durante a lotação, eu percebo cada evento minuciosamente; posteriormente quando a viagem tranquiliza, eu as guardo no meu caderno de anotações (que o fiscal não leia isso!).
Seria muita maldade estimular você, leitor, a ler minhas anotações e não expor ao menos uma delas aqui. Digo sempre que seria muito difícil selecionar o melhor dos meus escritos, entretanto deixarei aqui um fato que despertou minha atenção por se tratar de alguém incomum, embora eu possuísse uma grande afinidade com ele: a escrita. Certo disso, serei breve no conto.
Trata-se de um afamado escritor que, todavia, no ônibus tinha sua identidade preservada. No mês passado, diariamente ele assentava-se no mesmo lugar: no assento mais alto e no fundo do ônibus para ter uma boa visão dos acontecimentos. Demonstrando sua simpatia, ele nunca negou palavra a ninguém, fosse criança, adulto ou idoso. Certa vez, ele começou a conversar comigo, no entanto, desconfiado percebi um tom de entrevista naquele diálogo.
Anos depois, ao explorar uma livraria, encontrei na orelha de um livro estampado o rosto daquele mesmo homem. Isso foi convidativo, logo comprei o exemplar. Ao folhear a obra encontrei-me nela literalmente: tudo que eu havia dito naquela conversa estava ali descrito com minúcias.
Enfim, a minha representação naquele livro me encorajou. Percebendo que mais pessoas vêem no ambiente ônibus um universo de coisas surpreendentes, logo entrei em contato com aquele homem e mostrei o meu simples caderno de anotações. Deu certo, ele apadrinhou as minhas ideias. Hoje posso dizer orgulhosamente que sou um dos poucos a desempenhar a profissão de cobrador-escritor.



