UM GOLE DE IDEIAS

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.: Um Gole De Ideias :. -> Dois anos no ar!

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segunda-feira, 3 de maio de 2010

A CRISE DOS JORNALEIROS


As minhas dívidas me sufocam, como isso é angustiante. Preciso encomendar mais manuais da angústia para enfrentar a vida. Não aguento tanta pressão familiar: meu filho querendo comprar seu novo brinquedo, minha esposa querendo dinheiro para o cabeleireiro e minha mãe uma geladeira nova. Também tenho direito de desejar: eu quero um emprego que renda algum dinheiro, pois nunca na história desse país, os jornaleiros enfrentaram uma crise tão assoladora.


Fato é que muitos abandonaram as bancas de jornal para acessarem os sites de notícias das grandes potências da comunicação brasileira. Além disso, as pessoas não compram mais suas revistas comigo, pois realizam assinaturas anuais pela internet por preços bem mais favoráveis a longo prazo.

Ao contrário de qualquer jornalista, que se envaideceria com qualquer furo de reportagem, a inconstância de alguns acontecimentos me empobrecem: a derrota dos times de maiores torcidas do Brasil, Flamengo e Corinthians, vieram no mesmo ano para reduzindo as tiragens em mais de 75%. Ao menos as notícias polêmicas, mas nada surpreendentes, da quadrilha rubro-negra, o Império do Amor, trouxeram-me boas vendagens.


Outro acontecimento que vem ajudando a nossa classe é a parceria de Dunga com o Conselho Federal dos Jornaleiros. O mistério estratégico que técnico da Branca de Neve anda fazendo com relação a convocação dos seus jogadores para Copa da África do Sul, lançou dúvida: e o Neimar va,i ou não, para a seleção brasileira, gente? Também não sei, mas vou vendendo meus jornais enquanto isso.


O coração desse jornaleiro frustrado tem esperanças. Já ando até ganhando algum dinheiro com a venda das figurinhas da copa. Porém, o troca-troca muito comum do futebol (que diga o Fenômeno), se transfere para o mercado negro das figurinhas autocolantes, prejudicando-me muito. No mais, tenho boas expectativas com a copa do mundo. Muitos jornais serão vendidos para sabermos os resultados das frustrações e conquistas mundiais. Só me resta o Brasil não sair das oitavas de final.


Por fim, e a tal da Bolsa Cultura que não sai?! Presidente, por favor, vamos logo incentivar a leitura dos formadores de leitores! A educação brasileira precisa disso, os Jornaleiros mais ainda!

***

- Moço, três pacotinhos de figurinhas da copa, por favor.

- Dois reais e dez centavos, rapazinho.

- Toma aqui, moço. Obrigado! Você tem pra trocar?

- Sai daqui, moleque!!!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Não comerás!


Gente, depois que a Organização das Nações Unidas disse que daqui a quarenta anos o número de habitantes no planeta chegaria a 10 milhões, eu fiquei preocupado. Pense junto comigo: se sendo somente 6,7 bilhões de pessoas, a gente já consome 230 milhões de toneladas de carne anualmente, imaginar o dobro de pessoas se alimentando com carne?


Beleza, é só aumentar a produção de carne. Mas pensa de novo junto comigo: se aumenta o número de pessoas, consequentemente, deve-se aumentar a área para essas pessoas viverem, não é verdade? Aí é que está o problema. Onde a galera vai viver e onde é que vão se criar os bois, vacas, galinhas, já que os espaços rurais deverão ser tomados para abrigar esse monte de gente?


Você pode achar que eu sou mais um cidadão impressionado com as coisas que passa nos jornais, eu sei. Mas isso não é verdade. O consumo exagerado de carne carrega estragos irreversíveis no planeta. Para produzir meio quilo de carne é necessário cultivar meio campo de futebol com alimento para o animal. Mais carne, menos área habitável. Não é só isso: gasta-se muita energia, gera muito esgoto e acaba com a natureza.


É só por esse motivo que eu decidi, aos poucos é claro, abandonar o hábito de comer carne. É extremamente difícil, ainda mais que é uma questão cultural. Carne no congelador é sinônimo de fartura, riqueza e até satisfação pessoal. Tente passar o domingo só com arroz, feijão e ovo. Alguém não vai chegar vivo até o horário do Fantástico, tenho certeza.


Isso não é a solução para a superlotação do planeta, mas uma questão evolutiva. Na escassez de alimentos protéicos, como a carne, quem começou agora com um “plano heróico de diminuir a ingestão de animal morto” tende a se dar bem num futuro caótico que os analistas preconizam. Ah, e tem o fato social que quem não come carne é visto como intelectual – para não dizer nerd.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Manual da angústia

Hoje escrevo àquelas pessoas afortunadas, para aquelas que de tão felizes possuem uma grande dificuldade de cultivar no âmago seus questionamentos e inquietações. Não é nada fácil largar esse estado de gozo eterno e encarar uma angustiazinha; mais difícil ainda é reconhecer que o mal que se tem é esse. Está aí um bom ponto de partida: o primeiro passo pra uma boa angústia é notar a vontade de ser assim.

Definições e apoio científico sempre ajudam nessas coisas. Fui ao Aurélio e ele me trouxe essas definições: “1.Grande ansiedade ou aflição; ânsia, agonia. 2.Grande sofrimento ou atribulação.” Podemos continuar relacionando a grande tendência de nossa contemporaneidade, a felicidade plena, e reconhecendo a dificuldade que me trouxe esse tema.

O estado de “quase” pode ser o primeiro sintoma visível. As respostas automáticas aos quase amigos também. Eu falo daquele “estou bem” que sai sem saber porque, e que preenche o angustiado do lado de lá que responde, geralmente, com um “estou bem também”. Nesse ponto a angústia é fantasiada de felicidade que dura o tempo de um baile a fantasias, basta perguntas mais invasivas.

Se você tem os sintomas acima mencionados, não se preocupe. As necessidades mais específicas e a exigência no mercado da felicidade podem justificar momentaneamente o que você chama de crise. Talvez este seja o ponto chave: não trate a angústia como uma crise. Depois de constatada só lhe resta um caminho passivo e solidário a ela. Você não procura mais a felicidade e sim um tempo sem angústia. A exigência vai passando ao passo que o tempo de convivência aumenta. No fim ficamos bem com ligeiros segundos felizes, e o tempo quase que integral é dela.

Neste outro parágrafo pretendia narrar com detalhes explícitos a angústia que foge aos dicionários. Agora um filtro antirrecorrência me impede do óbvio. Não me embrenharia linha afora pra dizer o que vocês já sabem e vivem tão cotidianamente.

A angústia se multiplica no vazio, se mistura à falta de tempo, bebe das crises existenciais, se alimenta do hiato amoroso e da falta de palavras. Quando estiver a sós com ela não transmita vontade de se ver livre, não deboche da falta de motivos nem pense ser mais uma viajem de seus pensamentos tortuosos. Encare-a! Cale a voz, a sua voz, e sinta-a. Viver a angústia pode ser o primeiro passo pra reconhecer os próximos momentos de alforria.

Este texto, por exemplo, que se nega... que se contradiz... que se resume... pode ser gerado de angústia e para a angústia. E o clube dos angustiados ganha mais associados a cada dia. Estamos tão desamparados e carentes que apelamos, imploramos por palavras. Qualquer palavra que nos mostre a felicidade. Autoajuda pra ganhar dinheiro ou novo cônjuge, pra conseguir emprego ou paz espiritual. Não importa a via de reza, importa agora o bem viver. Ah!, como eu queria ver: “Vende-se um manual da angústia! Vende-se um manual de ser!”

domingo, 4 de abril de 2010

O médico disse

O médico disse que estou demasiadamente acima do peso e que devo melhorar minha alimentação. Disse que devo fazer exercícios físicos regulares e procurar tratar de minha depressão. Em meia hora gastei cerca de cem reais e tive ódio por estar vivo dentro dessa capa sedentária de gordura acumulada. Que espécie de deus ele acha que é?

Fiquei escutando as recomendações e imaginando as cenas que vi algumas vezes. As academias lotadas de gente fazendo careta e suando, feito primitivos, a caminho de coisa alguma. Isso não é pra mim. Eu sou um intelectual! Olhei em cima da mesa dele um cinzeiro cheio de pontas de cigarros. E que ele era tão gordo quanto eu. Ainda me contive.

Levantei, tirei a camisa como ele sugeriu. Ele encostou aquele estetoscópio gelado do meu peito e disse que minha respiração estava meio ofegante. Receitou uns exames de rotina. Pensei: só se for a sua rotina, minha vida não é essa. Acho que minha revolta não vai se conter por muito tempo. Ele olhou meus olhos, puxou a pálpebra inferior com o dedão e suspeitou de uma anemia também.

Juro que àquele ponto da conversa já me sentia um hipocondríaco ou um covarde que tem medo de viver e que vive nesses laboratórios esperando um aval pra vida. Já tinha ensaiado uma série de observações e diagnósticos que fiz àquele velho que me repreendia. Resolvi me vingar de forma mais culta e cá estou. Não fiz os exames que ele pediu... E ainda estou aqui, e aposto que mais feliz e vivo que aquele poço de sabedoria curativa.

Os padrões de normalidade podem não fazer bem aos que são fora dos padrões. Existem formas alternativas de se ter a tal felicidade vital. Ignorei o medo da morte por hoje, e se ela voltar procuro um amigo que me tenha um abraço aceso, ou uma pessoa que me dedique bons beijos luxuriosos. Sigo driblando a insegurança e a sensação de pobreza intelectual que não me supre sempre. Estou bem! Que seja assim.

AO PERSISTIREM OS SINTOMAS UM MÉDICO DEVE SER CONSULTADO. MAS QUE A CONSULTA TENHA AR DE CONSULTA, NÃO DE DECRETO. TUDO É ALTAMENTE QUESTIONÁVEL.

domingo, 28 de março de 2010

A NECESSIDADE FEZ UM POETA


Dentre prosas velejo por mares tão distantes, tão abstratos e fantasiosos quanto qualquer insensatez do LSD ou chá do Santo Daime. Prosear deixa-me próximo de uma liberdade imensurável, em contraposição aos atraentes braços fúlgidos, entretanto limitantes da poética. Não há nada melhor do que jogarmos conversa fora com nós mesmos, escrevermos o livre pensar sem redomas de expressão!


A poesia recebe muitos gracejos, ela é meticulosamente delineada, sendo sempre vangloriada por isso. Ela é até um tanto intocável devido isso: obra do divino saber, condescendente às emoções.


Eu caminho na solidão, sou apenas acompanhado pela prosa. Gosto dela por ser intempestiva, pois não preciso de motivos e nem que esteja em momento propício à produção: amores e dores não alimentam minhas estrofes, apesar de preencherem muitos versos insinceros. Melhor confessar, leitor, que minhas jornadas em prosas não são tão solitárias: logo surgem diversos personagens que retratam os mais diversificados “eus” do deus que os redigiram. E monotonia não há: eu-líricos de todas as formas chegam a travestirrm o gênero do narrador-personagem ou até mesmo personificarem um objeto inanimado, como a minha caneta (a Caneta). A cada prosa um novo mundo nasce. A cada mundo criado e compartilhado através da leitura, novas ideias fervilham para o nascimento de outras obras semi-divinas.


Eu sou assim: universo de prosa. Ainda assim, não me distancio da estética, percorrendo numa complexa rede de palavras que provocarão êxtase, mas que só farão sentido num generoso contexto. Eu sou prosa desde os tempos da Caneta Bic, hoje quase extinta por causa dos teclados afoitos. Por amores, porém, tive que me aventurar na poesia, desbravando o léxico para encaixar as peças desse jogo fugaz: as sílabas métricas e as rimas. Eu não era muito feliz! Olha uma das que eu escrevi ainda no colegial:


“Foi paixão o que o meu corpo sentiu

quando pouco estive em sua presença.

ou apenas uma ilusão tangente

à uma inocência repleta de esperança?


Queria ao menos sua boca tocar,

tirar a prova real pelo físico,

saber pelo teu gosto o que é se apaixonar

ou apenas alimentar um coração fraco.”


Nossa! Esse poema foi desenterrado, creio ser melhor não terminá-lo? “Prova real, Tangente”... Talvez se fosse a professora de matemática quem tivesse iludido a minha inocência repleta de esperança, talvez até fosse um poema inteligente. Apesar de não ter valor estético essas grandes frases apenas fragmentadas. O fato é: acho que eu nem sabia o que significava tangente, apesar de ter se encaixado tão bem. E talvez eu nunca tivesse “esperança” alguma, se esta palavra cheia de significado não rimasse com “presença”. Percebe o engessar da minha poesia? Você acaba navegando para um discurso que não te pertence e naufraga em emoções um tanto mais aquém ou além da sua real expressão. Quantas pessoas já não recitaram “amar” só porque esta palavra é tão fácil de rimar?


Você deve está pensando agora: “aonde ele quer chegar com isso?” Devo não mais prolongar esse texto e logo me explicar.


Simplesmente o tempo foi passando... Tentava através da poesia conquistar ou manter meus relacionamentos. Amores vários nasceram forçados pela minha rima poética, mas logo se acabavam, deste modo mais versos deveriam ser criados para novas conquintas. Foram muitas conquistas! Claro, que muito menos do que tentativas amorosas falhas. E foi assim que a necessidade fez-me poeta. Tudo bem que eu era um free-lancer de mim mesmo: escrevia para meu alterego conquistar paixões. Mas, não é que juntando todos os meus poemas eles renderiam um livro (mais pela quantidade do que pela qualidade)? Uma editora aceitou o meu projeto “Ensaio de um poeta vivo”, antes de aceitarem as minhas prosas cheias de liberdade de expressão e conteúdo.


Enfim, veio a publicação do meu livro de poesia, diria o meu primeiro ensaio como escritor profissional, contudo não sabia se alguém, além da minha mãe e minhas tias solteironas, o compraria. Mas compraram... e muito! E hoje em dia a poesia faz parte do meu trabalho: com as vendas a editora me pressionava para novas publicações e começaram investir no meu nome. Queria ter dado certo com os meus romances, porém a editora ainda não acreditava neles e falavam: “vamos dar um tempo pro seu nome se estabelecer”. Claro, chegaria um determinado momento que as pessoas comprariam até literatura de cordel escrita no papel higiênico de um renomado - e essa sempre foi a minha grande crítica.


Hoje conquistei a almejada fama. Sou convidado para participar de muitos eventos sociais e blá. O lado bom disso é que ganho um bom dinheiro, apesar do meu engendramento literário. Mais sabe o que é o mais legal disso tudo? É que os poemas que antes foram fracasso nas minhas conquistas (a grande maioria delas), hoje conquistam inúmeras pessoas.

terça-feira, 23 de março de 2010

A lenda do menino sem deus


Diziam eles que havia, no antigo bairro de Santos Dummont, um menino franzino que orava em línguas. A novidade não se dá pelo fato de um garoto pronunciar palavras aleatórias que voam boca a fora, e sim por se tratar do objeto de fé que atua em inúmeros milagres comprovadamente grandiosos. Os pais dele, orgulhosos que só, ostentavam a criança nos cultos agitados do vilarejo. A ideia de milagre parecia tão palpável que a própria mãe do menino passou a entoar as orações enquanto conversava com ele sobre as coisas cotidianas – um cotidiano de dias contados, aliás, a essa altura. O tiraram da escola a contragosto do próprio menino, diziam os pais que ele devia se dedicar às missões que o foram confiadas.


A igreja, o pastor, os vizinhos, os pais, e os irmãos, todos eles ganharam brio. O menino era olhado com grande curiosidade até pelos mais céticos vizinhos, talvez por reconhecimento da atual fama... Talvez! Digo a vocês que perceberiam a grandeza do menino só de olhar de canto de olho, e ainda que as palavras entoadas por ele eram mesmo de um tom divino. O pastor passou a pedir mais a contribuição do menino nos momentos de reflexões nos cultos. Vale perder um pouco mais de linhas descrevendo a cara do menino após esse tipo de chamado em dado momento da celebração. O menino quase sempre se desprendia da mãe com facilidade e obstinação; tinha passos firmes a caminho do altar/palco; delicadamente entreolhava o chão e o público com olhos semisserrados, espalmava uma das mãos enquanto a outra tocava o peito, e permanecia assim até atingir as palmas e os olhares contemplativos; voltava ao acolhimento fraterno sem muita cerimônia e, calado, esperava ansiosamente o amém derradeiro.


O chamavam para entrevista na rádio... O único jornal de circulação local pedia declarações... Mas os pais/assessores tratavam logo de dissipar o tormento da modernidade. O menino comia, se enclausurava no quarto, ora falava com um dos irmãos ora recebia alguma visita desesperada. A essa altura, caros fiéis, o menino se questionava sobre a verdade das coisas, observava vagamente o horizonte restrito que a sua janela o permitia, e aspirava à liberdade de viver além das rédeas de suas próprias atitudes – uma espécie de culpa que nem mesmo ele conseguiria nomear, isto faço eu agora.


Certa vez os pais permitiram a visita de uma antiga amiga do menino, dos tempos da escola. A menina também frequentava a mesma igreja, mas, ao contrario dele, ainda ia às aulas regularmente. Ela adentrou o claustro com passos silenciosos e encontrou o menino debruçado no parapeito da janela. Ele a recebeu com muita festa e ela imediatamente o deu um grande abraço. As perguntas infantis foram se sucedendo até que... “como é essa coisa de falar em línguas?” O menino sentiu que era demasiado perigoso responder àquele questionamento, porém pensou também que não exercia poder divino nenhum diante daquela menina. As palavras dele rodeavam o assunto sem muito dizer, mas a insistência da garota dos porquês resultou numa suspeita quase que inevitável. A jovem ainda tinha porquês pra uma tarde inteira, mas logo a interromperam com um grito vindo da cozinha: “Já é quase hora do jantar, Sofia!” significa: hora de ir pra casa. Eles se despediram e o menino voltou à janela com gosto de maça na boca. Dividiu com a doce menina o código da santidade e acabou por invalidar o solitário bem egoísta de ser deus.


Ouvi falar num tal menino que viu a vida da janela de seu quarto. Pouco sabem de sua infância e adolescência, pouco investigam sobre isso também. Diziam as más línguas que era um ateu nato, mas a sua volta foi deus declarado. Da vontade dele pouco dizem também tampouco da eternidade que reside além do horizonte da janela. Tenho pra mim, que conto agora essa história, que a realidade dele ainda sofrerá algumas alterações.



sábado, 13 de março de 2010

AGORA EU TENHO UM CORAÇÃO



Rancor, medo, ódio... nada disso possuo. Sou um homem de ferro, melhor dizer, uma coisa de ferro. Ainda assim, quando desejo, não há ninguém que possa me persuadir a não concretizá-lo. O que quero agora? Um coração. Mas quero um bem novo, longe dos entraves da vida adulta ou das moléstias da senescência. Além disso, quero um coração distante dos sentimentos malignos que assolam o homem.


Andei vendo muito aquela caixa que fala, talvez seja televisão o seu nome, e aprendi que, no final, o bem é superior - apesar de sempre sair-se mal na maior parte do tempo. Aprendi, também, que apenas no coração jovem se habita a inocência, bem longe do mal. Porque falo disso? Quero ser bom, mas antes preciso apenas ser. Pois existo num vazio... Vagando em minhas ações que não têm sentido, pois estão mortas. Nem morto posso estar, porque simplesmente não possuo o dom da vida!


Minhas irmãs, moças para quem sirvo, dizem me amar. Ainda nem entendi o que é isso, mas elas falaram que, por causa disso, fariam qualquer coisa por mim, que dariam mesmo as suas vidas por/pra mim. Nunca fiz nada para merecer isso, apenas vago no existir, cumpro os comandos que o Pai determinou.


O Pai foi trabalhar hoje cedo e disse: “cuide bem das minhas filhas”. Senti um aperto incompreensível no meu peito. Segundo a caixa, isso seria psicogênico, mas tão tenho coração, tampouco alma. Então, porquê sentir algo? Só sei que percebi que as irmãs eram muito significativas para o Pai, bem mais do que sou. Devoto tanto ele, mas as irmãs sempre mencionam o odiar. O Pai as proíbe de algumas coisas afirmando ser para o bem delas, mas elas nunca se conformam. Também não entendo o por quê do Pai as amar tanto. Claro que sei: elas têm um coração.


Uma frase ecoa: “fariam qualquer coisa por mim”... Como num filme da caixa, peguei o machado do Pai e fui ao encontro dos jovens corações. Elas diziam: “O que vai fazer? Não faça isso! Está louco!” Mas minha loucura era saber se aproximar do que o homem tem de racional.

Os corpos inanimados das irmãs sobre as poças de líquido vermelho me parecem tão belo. Pai deve ficar orgulhoso de mim. Agora EU tenho um coração, um não, dois. Agora o Pai vai me amar mais do que tudo ou todos.


Na minha mão vejo o precioso órgão. O que os sábios diziam guardar a vida, mas me parece tão morto. Ele não é de perto tudo o que falam, mas agora possp sentir coisas estranhas... Algo escorre dos meus olhos e parece alguma coisa deu errada. Vou ao encontro das minhas irmãs. Elas estão mortas e eu não consigo me controlar: sofro pela primeira vez. Sinto uma dor imensa no meu peito, nos meus novos corações. O Pai não vai gostar nada disso! Agora já é tarde demais, com o arrependimento eu vou viver com a esperança de um dia a morte me aliviar.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Filhos da democracia

Perturbado pela atual cena política nacional, faço uma pergunta: o que está acontecendo com a geração anos 90? Incluindo-me na mesma, sou de 1988; nascemos praticamente juntos com a instauração da democracia no Brasil, o sonho tornara-se realidade, o país estava livre, finalmente, e nós, nascemos livres. Esta pergunta surgiu de uma constatação óbvia, futuramente a nação será governada por nós. E o que faremos? O que temos a oferecer? Tenho certeza que não ofendo ninguém ao dizer que minha geração tornou-se a geração sem-educação, quando deveria ser o oposto, visto que o acesso à educação - do básico ao superior - é bem amplo. Curso Letras na faculdade, serei professor e imagino um aluno me mandado tomar no c*, porque o repreendi ou lhe dei nota baixa. Mas como, se meus futuros alunos nasceram, em sua maioria, na geração 2000? Esses terão acesso praticamente ilimitado à informação, cultura e educação. Mas infelizmente herdarão o que nós deixaremos.


O cenário político-social do início dos anos 80 foi marcado pela luta de nossos pais para que o país saísse da era negra da ditadura militar e entrasse na iluminada era democrática. Muitos foram presos, torturados e mortos, mas conseguiram alcançar seu objetivo porque acima de tudo, acima da dor e da humilhação, tinham um ideal. Vieram de uma geração confinada, em que a única opção era a opção “a”, que o governo lhes dava. Mas com o idealismo que os movia e os motivava a seguir em frente, lutaram bravamente para que seus filhos, para que nós pudéssemos escolher uma opção “b”. Às vezes, chego a pensar que o idealismo morreu junto com o velho Tancredo, o primeiro presidente eleito democraticamente... Enterraram a arma que usaram para concretizar seu objetivo, como se não houvesse mais batalhas a ganhar. Nossos pais empenharam-se tanto para termos o que eles não tiveram que se esqueceram de nos dar o que eles tiveram: idealismo e coragem para que fôssemos uma geração forte, educada e consequentemente, extraordinários seres humanos e líderes em quaisquer áreas de atuação.


Invejo meus pais... nasceram da geração sem esperança e na marra tornaram-se a geração idealista, a geração ideal! E eu, e nós, geração anos 90, futuros líderes, filhos da democracia e agimos como anárquicos, seguimos nossas próprias regras porque nada mais importa a nós do que nosso próprio umbigo. Um brinde a nós, filhos da anarquia democracia!
Ontem o presidente Tancredo faria 100 anos, morreu em 1985... o ano da morte do idealismo.
Por fim, deixo registrado aqui, meu apelo: Exumem Tancredo Neves!

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